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O AMOR de Cristo refletido na maternidade

  • 14 de mai.
  • 8 min de leitura

Em continuidade à nossa série Espelho, refletindo os atributos de Cristo na maternidade, nos debruçamos agora sobre aquele que é o atributo mais conhecido e citado de Deus: o amor. À primeira vista, não nos parece nem um pouco difícil a missão de refleti-lo na criação de nossos filhos. Na maioria dos casos, nós os amamos desde o primeiro momento em que sabemos de sua existência. Se há algo ou alguém que realmente consideramos fácil amar, são nossos filhos. Não é verdade?


Bom, talvez este estudo seja um balde de água fria, mas, à luz da Palavra de Deus, talvez descubramos que aquilo que acreditamos ser amor nos foi ensinado pela cultura e não, de fato, por seu verdadeiro Autor.


O que é amor e como sabemos, de fato, que estamos amando nossos filhos? São perguntas que apenas o Criador de todas as coisas pode nos responder. E são essas respostas que buscamos neste segundo estudo da série.


O que é AMOR?


O Criador de todas as coisas nos ensina. A mensagem do evangelho, por si só, revela o que é o verdadeiro amor: por meio do sacrifício de Cristo, fomos reconciliados com Deus, pois: “Ele nos amou de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16). Também na Palavra encontramos diversos trechos em que o amor é explicado e aplicado de forma bastante específica. Veremos alguns deles mais adiante.


Mas, mesmo com uma definição tão clara e explícita à nossa disposição, até nós, mulheres cristãs, muitas vezes nos confundimos quanto ao verdadeiro sentido do amor. A autora do livro Renovadas, Jen Wilkin, sugere que a influência da cultura impacta consideravelmente nossa compreensão desse sentimento, deturpando o sentido real do amor descrito na Bíblia.


A primeira barreira para o entendimento bíblico seria o culto da nossa sociedade ao amor romântico, aquele avassalador, que nos tira o ar e o juízo. Não à toa, o filme Titanic faturou mais de 700 milhões de dólares com uma história de amor de apenas quatro dias. O sucesso teria sido o mesmo se tratasse de um casamento de 60 anos? Músicas, filmes e romances ao nosso redor valorizam e enaltecem esse sentimento arrebatador como se fosse o maior e melhor que podemos experimentar. Esse, porém, não é o amor revelado através do Evangelho.


Quando, na igreja, ouvimos louvores e pregações que usam expressões como “loucamente apaixonado por Cristo”, vemos um sintoma dessa valorização do amor romântico e arrebatador acima de todos os outros, o que não reflete o amor perene, consciente, longânimo e sacrificial que aprendemos com o evangelho.


A segunda barreira para uma compreensão correta encontra-se na própria linguagem. Em português, e também em inglês, dizemos “eu amo pizza”, “eu amo meus filhos” e “Deus me ama”: o mesmo verbo para expressar sentimentos completamente diferentes. Usamos a palavra “amor” para uma gama muito ampla de coisas e não percebemos como a linguagem molda também nossa forma de pensar. Segundo a autora, essa limitação linguística pode dificultar nosso entendimento do amor de Deus.


O grego antigo, idioma em que foi escrito o Novo Testamento, é mais específico e, para aquilo que chamamos simplesmente de “amor”, utiliza quatro palavras diferentes. São elas: philos, que expressa carinho e amizade; eros, o amor romântico; storge, o afeto familiar; e, finalmente, ágape, o termo usado para descrever o amor de Deus. Philos é usada 54 vezes no Novo Testamento; storge e eros, nenhuma vez; e ágape, 259 vezes.


Ágape é uma palavra de origem grega que descreve um amor elevado. Caracteriza-se por ser altruísta, voltado para o bem do outro, sem interesse próprio; incondicional, pois não depende de circunstâncias ou recompensas; generoso e sacrificial, disposto a se doar. Podemos dizer que é um amor contracultural, pois, diferente do amor romântico, cultuado e buscado incansavelmente, o amor ágape não se baseia em sentir, mas na decisão de agir em favor do outro de forma proposital, consciente e deliberada, colocando seus interesses acima dos próprios, sem esperar absolutamente nada em troca.


Vejamos algumas aparições da palavra ágape no Novo Testamento:


“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8)


“Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperardes; e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus.” (Lucas 6:35)


“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.O amor nunca perece; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá.” (1 Coríntios 13:4-8)


Sem amor não há santidade


Em Mateus vemos o seguinte diálogo entre Jesus e alguns fariseus:


“E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo:Mestre, qual é o grande mandamento na lei?E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.Este é o primeiro e grande mandamento.E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:35-40)


Jen Wilkin nos dá uma ilustração muito divertida e prática do ensinamento dado por Jesus. Em seu livro, ela conta que, por problemas na instalação hidráulica de sua casa, sofreu um alagamento no closet. Todos os sapatos e bolsas que estavam no chão tiveram avarias, mas as roupas penduradas permaneceram intactas. Ela então conclui: o amor é como a barra do closet que salva os nossos bons atos do pecado. Tudo o que fazemos sem amor acaba sendo contaminado, seja por motivação orgulhosa, vaidosa e assim por diante.


Nessa passagem em Mateus, Jesus falava aos fariseus, que achavam que cumprir toda a lei bastava. Mas Ele está dizendo: só é santo se estiver baseado no amor. Amor a Deus e ao próximo. Se todas as coisas belíssimas que você faz não estiverem baseadas no amor a Deus e ao próximo, não são prática de santidade. Em suma, Ele diz: não adianta cumprir a lei sem amor.

Em 1 Coríntios 13:1-3, lemos:


“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.”


Jen ressalta: “Se eu procuro ser santa sem ser ágape, não acrescento nada, não sou nada e não ganho nada.”


Amando como Deus ama


1. Decidir amar, não importa o custo


Quando reconhecemos que o amor concedido por Deus não é mera emoção, mas um ato de vontade, somos forçadas a reavaliar como nós mesmas amamos o próximo. Isso significa abandonar a classificação “amável” e “não amável”.


O alto preço do ágape foi evidenciado na cruz. Quando decidimos carregar a nossa cruz e seguir a Cristo, ou seja, decidimos amar como Cristo amou, precisamos saber que esse amor vai nos custar. O ágape tem um preço alto: começa no nosso orgulho, nosso conforto, nossa vontade própria; depois escala para as nossas expectativas de planejamento e segurança, podendo nos custar também nossa popularidade, aceitação e até respeito. Mas, quanto mais nos entregamos a esse amor, mais amadurecemos e nos aprofundamos no relacionamento com Deus. É só esse o tipo de amor que diferencia os crentes do resto do mundo.


O que Deus quer para a sua vida? Que você ame como foi amado. Qual escolha me fará crescer em ágape para Deus e ao próximo? Então escolha fazer a vontade de Deus.


2. Assumir sua incapacidade de fazê-lo sem o auxílio do Santo Espírito, inclusive quando se trata de seus próprios filhos


As outras três formas de amor, philos, storge e eros, são limitadas por nossa condição humana. Primeiro, porque surgem de alguma carência, seja intimidade, aceitação ou companheirismo. Até mesmo o amor materno pode carregar, em alguma medida, esse traço. Quanto maior a carência, a necessidade de receber algo em troca, maior pode ser o medo de amar, por receio da rejeição. O amor ágape, em contrapartida, não nasce de necessidade alguma. Deus não precisa de nós para nada; por isso, esse amor pode ser dado livremente, em abundância, sem medo de rejeição.

Além disso, há a reciprocidade: o amor humano, sem retorno, tende a enfraquecer com o tempo. Já o ágape, o amor divino, é oferta de mão única. Ele nos amou primeiro, quando ainda não o amávamos.

Por fim, o amor humano costuma considerar o valor do seu objeto: amamos porque admiramos algo no outro, porque ele corresponde às nossas expectativas, porque nos faz bem. O amor ágape não se baseia nisso. Deus não nos ama porque somos amáveis, mas porque Ele é amor. É um amor que se firma justamente naquilo que o mundo consideraria indigno de amar. Somos indignos do amor de Deus e, ainda assim, infinitamente amados. O ágape se expressa com maior pureza quando é direcionado àqueles de quem nada receberemos em troca, nada de bom, nada agradável. Afinal, não é isso que somos sem Cristo?


Contudo, o amor ágape transcende nossas limitações humanas e, por isso, não somos capazes de praticá-lo sem o auxílio do Espírito Santo. O primeiro passo para amar como Deus ama é assumir nossa total incapacidade de fazê-lo e rogar a Deus que nos capacite através do seu Santo Espírito.


A passagem de 1 Coríntios 13:4-8 nos confronta e nos leva a questionar se amamos, de fato, nossos filhos ou se apenas reduzimos esse sentimento a mero sentimentalismo. O padrão bíblico para o amor é muito alto: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Mesmo quando eles não nos dão nenhum motivo para isso, mesmo quando não atingem nossas expectativas. “O amor é paciente, o amor é bondoso. (...) Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor…” mesmo quando eles não nos honram, não obedecem, quando não nos dão absolutamente nada em troca.


É importante nos mantermos conscientes de que a capacidade de amar que Deus nos deu foi corrompida pelo pecado de muitas formas. Podemos não amar nossos filhos da forma correta quando não alcançamos o padrão descrito na passagem em Coríntios, mas também podemos deixar que o sentimentalismo substitua o amor. Isso acontece quando não corrigimos por não gostar de vê-los tristes ou quando não somos justas por não querer contrariá-los. Esse tipo de relação não reflete, em forma alguma, o amor de Deus por nós.


3. Se livrar da idolatria causada pelo amor desordenado


Agostinho de Hipona nos falou sobre o Ordo Amoris, a ordem correta de amar as coisas, da mais importante para a menos importante. Quando Deus não está no topo, todas as outras coisas são prejudicadas; não somos mais capazes de amar nada da forma correta.


Se temos dificuldade de amar o próximo, é porque estamos falhando no amor a Deus. Não à toa os Dez Mandamentos começam com o amor a Deus acima de todas as coisas, e aqui também, na passagem de Mateus 22, começa com o amor a Deus, porque, se amarmos a Deus da forma correta, que é de toda a alma, toda a força e todo o entendimento, conseguiremos amar o próximo. Porque, quando amamos a Deus, entendemos quem somos.


Reconhecemo-nos em nossa posição de dependência total de Deus e da sua graça, totalmente imerecida, assim como seu amor totalmente imerecido. E aí sim, vendo-nos como somos, nos vemos livres para amar sem restrições de merecimento, mágoa ou reconhecimento. “O relacionamento vertical correto com Deus corrige meu relacionamento horizontal com meu próximo”, diz Jen.


Ore conosco


Pai amado, obrigada por ter imprimido em nós os seus atributos. Capacita-nos a sermos embaixadoras da sua glória neste mundo. Purifica-nos, a fim de refletirmos cada vez mais a sua face. Ensina-nos e capacita-nos a amar o próximo e nossos filhos da forma como o Senhor nos ama: de maneira generosa, sem interesse e sem condições. Dá-nos discernimento para compreendermos o amor segundo a sua Palavra, e não segundo o que o mundo nos ensina. Faz-nos sábias, pacientes, amorosas e bondosas. Amém.



 
 
 

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